Para muitos casais a caminho da terceira idade, ou já instalados nela, a chegada da pílula da impotência pode significar a volta à animada vida amorosa da juventude. Uma maravilha, certo? Não necessariamente. Nos Estados Unidos, onde o debate sobre o Viagra está entrando em patamares avançados (exemplo: a Previdência Social deve
pagar o tratamento?), mulheres que já passaram dos 50 e se acomodaram a relações
infreqüentes com maridos da mesma faixa de idade estão preocupadas com o efeito do Viagra sobre sua vida conjugal. “Aos 55 anos, não tenho mais a mesma disposição”, comentou Ruth Prudhon, em entrevista ao jornal Washington Post. “No fim do dia, estou cansada e quero dormir. Essa pílula pode me trazer problemas.” Médicos e psicólogos acham que esse tipo de preocupação tem fundamento. “Com o passar do tempo, novos fatores psicológicos vão surgir nas relações dos pacientes em tratamento”, prevê o médico Myron Murdock, diretor do Instituto de Impotência dos Estados Unidos.
A professora brasileira Ilcéa Quintanilha, 68 anos, e o atual marido Rinaldo Gouvêa, 81,
juntos há oito, estão no grupo dos que não pretendem comprar o Viagra para injetar ânimo novo no quarto do casal. Até três anos atrás, quando Rinaldo fez uma cirurgia de próstata, o casal garante que mantinha o impressionante desempenho de pelo menos três relações por semana. “Hoje não tenho mais a mesma desenvoltura”, diz ele. Mas Ilcéa está satisfeita com o ritmo lento do sexo, acompanhado por outras demonstrações de afeto. “Toda manhã eu a acordo com carícias e beijos”, conta Rinaldo. “Enquanto a cabeça está boa, a sexualidade funciona e pode ser explorada em todos os sentidos”, ensina Ilcéa, que conheceu o marido num baile para idosos.
Fundo do baú — O meio-termo encontrado por Rinaldo e Ilcéa, no entanto, é uma raridade. Depois que a rotina de avós se instala no dia-a-dia dos casais, a tendência é inventar milhares de desculpas para deixar a sexualidade fenecer no fundo do baú. Uma pesquisa, realizada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Uerj, mostra que, como se não bastassem os desencontros da juventude, homens e mulheres também têm dificuldade em entrar em sintonia depois dos 60. Feita em Copacabana — bairro que, de acordo com o censo do IBGE, tem a maior concentração de idosos do Rio de Janeiro –, a pesquisa é um retrato de uma realidade do mundo todo. Nos Estados Unidos, estudos realizados principalmente na década de 80 detectaram que 75% da população de cabelos brancos tem uma relação sexual a cada mês, se tanto.
No Brasil, o exercício da sexualidade na terceira idade também é claudicante.
Dos 300 idosos entrevistados na pesquisa, 75% não fazem mais sexo com parceiros,
embora a imensa maioria, 90%, afirme que o desejo não morreu e 80% pratiquem a
masturbação. “A sexualidade não acaba. O que acontece é que algumas pessoas optam por esquecê-la”, analisa o psicólogo Arnaldo Risman, coordenador da pesquisa da Uerj. o ritmo mais lento da vida na terceira idade, homens e mulheres colocam o desejo em um estado de latência por motivos diferentes. As mulheres reclamam da falta de parceiro;
os homens abrem mão do sexo por dificuldade de ereção. “Eles não se encontram. As mulheres ainda esperam um companheiro, mas os homens têm vergonha de não ser tão potentes como antes”, diz Risman.
